Roma, 20/02/2003
Senhor Presidente,
A comunidade internacional celebra o vigésimo-quinto ano do Fundo
Internacional de Desenvolvimento Agrícola com a satisfação
de registrar o papel progressivamente mais significativo do FIDA na assistência
financeira a países em desenvolvimento, entre esses os mais pobres,
em projetos de desenvolvimento agrícola promotores de mudanças
estruturais necessárias à superação da pobreza
rural.
A pobreza rural é várias vezes perversa. Afeta o homem do
campo diretamente, destruindo suas expectativas de sobrevência em
seu meio natural. Traz-lhe a fome ou o êxodo, que não lhe
resolve nem a pobreza nem a fome. Os malefícios da pobreza no campo
são bem conhecidos na inibição do crescimento econômico,
na crise do desenvolvimento social e na anulação da dignidade
humana. A pobreza rural é raíz dos desequilíbrios
que afetam as sociedades mal desenvolvidas, inclusive em suas relações
perversas com os excessos da urbanização, onde o desemprego,
a insalubridade, a falta de oportunidades às margens das grandes
metrópoles do mundo em desenvolvimento são razões
adicionais da fome e da miséria humana.
O Brasil aprecia o trabalho do Fundo para a superação da
pobreza e confia no trabalho que vem sendo realizado sob a hábil
condução de seu Presidente, Lennart Bäge.
As comemorações no FIDA coincidem com momento muito especial
na história em meu pais. Celebramos ainda hoje o resultado de eleições
gerais que confirmaram índole e instituições democráticas
brasileiras. Governo e povo decidiram com a eleição do Presidente
Luís Inácio Lula da Silva atribuir absoluta prioridade à
solução do problema da fome, sintoma dramático da
pobreza e da exclusão social.
Em quadro de preservação do equilíbrio macro-econômico
e da perfeita inserção do país na economia internacional,
sob a liderança de seu Presidente, o país volta-se para
si mesmo em busca da cura de seus males sociais. A cruzada em que nos
envolvemos tem a consciência de seu valor ético e a medida
de sua complexidade. Governo, sociedade civil, cidadãos aplicam-se
à tarefa de promover a segurança alimentar de cinquenta
milhões de brasileiros que ainda vivem abaixo da linha de pobreza.
A pobreza rural convive no Brasil com a grande agricultura que nos situa
entre os maiores no mundo. Fator de riqueza nacional, a agricultura brasileira
de exportação haverá de apoiar a superação
do estado de pobreza a que foram relegados milhões de homens do
campo que nele permaneceram sem os instrumentos básicos de produção.
A agricultura familiar e a pequena agricultura, por sua vez, sofrem ainda
no Brasil da falta de estímulos creditícios, de informação
tecnológica, de assistência técnica, de estruturas
de comércio que lhe permitam aceder ao mercado interno e ganhar
o mercado internacional. O processo de reforma agrária padece dos
mesmos males, que necessitam correção.
As grandes cidades inflaram populações que o dinâmico
parque industrial brasileiro não absorve por inteiro. Há
carências de origem que marginalizam o homem do campo que o deixa
para tentar a vida na grande metrópole. Há carências
resultantes do despreparo do homem empobrecido da zona rural que tenta
a vida no entorno das zonas industriais prósperas.
Enquanto se ocupa da complexa condução dos negócios
de um grande país, o Governo dedica-se com prioridade ao combate
à fome e à pobreza. O projeto Fome Zero do
Presidente da República envolve todos os setores da sociedade brasileira
e necessitará crescentemente do apoio decidido e firme da comunidade
internacional.
O Brasil ocupa-se de seus desequilíbrios internos, mas não
está destinado a ser uma ilha. Meu país relaciona-se com
o mundo e conhece o conjunto das dificuldades externas que tolhem seu
pleno desenvolvimento.
Há-que reconhecer que a pobreza é um desafio global. A
pobreza não deve ser vista como um fenômeno circunscrito
a fronteiras geográficas nacionais. A pobreza é ampla e
desafiante, está em toda parte e já se tornou um problema
planetário. Por isso aqui está o FIDA, por isso ouvimos
nestes dois dias opiniões dos mais diversos quadrantes do planeta
que não nos permitem mais ignorar que a fome e a pobreza são
misérias que se tornam causa de uma profunda insegurança
internacional.
Não a combateremos apenas com as regras estritas do mercado. Há
que conceder ao apelo de um bilhão de pobres do mundo que passam
fome e promover medidas de alcance real e concreto. À governança
nacional responsável que vimos demonstrando deve corresponder a
responsabilidade internacional.
O combate à pobreza é empreitada econômica, é reconhecimento das falências sociais a nível global, é dever ético de solidariedade, é luta a ser travada com objetivos econômico-sociais abrangentes, sem discriminações ou exclusões de qualquer espécie.
O combate à pobreza deve fazer-se em ambiente democrático
em que a sociedade internacional assuma o sentido de propriedade
do projeto. Trata-se de privilegiar o multilateralismo político
e econômico, como pretendemos em Monterrey, para fortalecer as estruturas
de governança multilaterais de maneira a habilitá-las a
resolver as hesitações que ameaçam nossa capacidade
de combater a pobreza.
Não podemos ignorar o comércio como fator de promoção
de riquezas e nisso o mais livre acesso aos grandes mercados, como fator
de crescimento sustentável das economias hoje muitas vezes periféricas.
Trato especialmente do comércio de produtos agrícolas que
estão a exigir ambiente mais aberto e estável, fundado em
regras mais equitativas que eliminem práticas protecionistas.
Doha ofereceu-nos a oportunidade de enunciarmos as bases para a eliminação das distorções que ainda persistem no comércio internacional, especialmente de produtos agrícolas. Não podemos concordar com subsídios e outras práticas adotados por países desenvolvidos que depreciam e deslocam valor significativo de exportações potenciais de produtos agrícolas de países que necessitam dramaticamente de recursos para promover seu desenvolvimento.
As consequencias injustas de tais práticas tem sido amplamente discutidas e foram expostas de diversas maneiras nas intervenções que ouvimos de ontem para hoje neste foro privilegiado do FIDA.
O mandato de Doha deve ser respeitado no que reflete o anseio da maioria dos membros da OMC por mudanças profundas no comércio internacional de produtos agrícolas que garantam o mais livre acesso da produção dos países em desenvolvimento aos grandes mercados mundiais.
O Brasil deseja intercambiar suas experiências internas no combate à pobreza e à fome com a comunidade internacional. Move-nos o sentido de solidariedade e o desejo de encontrar e harmonizar políticas justas na luta mundial contra a pobreza e o flagelo da fome.
Desejamos nessa luta dar especial atenção a nosso berço natural, o continente, a América do Sul e Central, o Caribe, e a nossos antepassados e irmãos da África. Saúdo aqui a acessão de Timor Leste como membro do FIDA, país com o qual estabelecemos importantes vínculos de cooperação. Todos descendemos da mesma herança histórica e cultural.
Mr.Chairman,
President Lula recently stated in Davos that the construction of a new
international economic order to be democratic and fair should not only
be an act of generosity, but mostly an act of political intelligence.
I interpret him now by urging the developed countries to play their role
and assume their responsabilities in fulfilling the commitments taken
in recent international conferences, particularly in Doha, Monterrey and
Johannesburg. We are prepared to assume ours.
Brazil is doing its part in the construction of a more just international
order. In spite of our many national priorities and present budgetary
constraints, we decided to maintain our pledge for the Replenishment of
Resources of IFAD. We hope that this example can encourage other donors
to maintain or even increase their support to the activities of IFAD.
In Brazil, Hope has defeated fear. I wish to conclude by sharing with the members of this Governing Council this expressive motto, recently incorporated in the life of 170 million Brazilians. Let us transplant this sentiment and try to consolidade truly democratic behaviour in all international spheres, electing the well being of people everywhere as our common responsibility, avoiding discrimination, promoting equality, combating misery and feeding the poor. IFAD should be part as it already is of a more just international system.
Thank you.